Por que você continua repetindo comportamentos que fazem mal, mesmo sabendo que precisa mudar?
Entenda como as regras que aprendemos ao longo da vida podem manter padrões de comportamento, contribuir para o sofrimento psicológico e dificultar mudanças.
Você já percebeu que, mesmo sabendo que determinada atitude faz mal, continua agindo da mesma maneira? Talvez você tenha dificuldade para dizer não, sinta que precisa dar conta de tudo ou se cobre constantemente para fazer as coisas da maneira certa. Você reconhece que esse padrão traz sofrimento, mas, na prática, mudar parece muito mais difícil do que simplesmente entender o que está acontecendo.
Uma das formas de compreender esse fenômeno é por meio do comportamento governado por regras, um conceito importante na Análise do Comportamento.
O que é comportamento governado por regras?
Ao longo da vida, aprendemos regras que orientam a maneira como interpretamos as situações e decidimos como agir. Algumas são ensinadas explicitamente por outras pessoas, enquanto muitas são construídas a partir das nossas experiências.
Frases como “preciso agradar as pessoas para ser aceito”, “não posso cometer erros”, “se eu não controlar tudo, algo ruim vai acontecer” e “demonstrar fraqueza é inaceitável” são exemplos de regras que podem influenciar nosso comportamento.
Essas regras não são necessariamente problemáticas. Na verdade, elas nos ajudam a aprender, antecipar consequências e organizar nossas ações sem precisar experimentar todas as situações diretamente.
A dificuldade aparece quando passamos a seguir essas regras de maneira rígida, sem considerar se continuam fazendo sentido diante das circunstâncias atuais. Nesse caso, podemos continuar agindo de uma forma que já não produz os resultados esperados ou que traz consequências prejudiciais.
Saber que uma regra existe não significa que conseguimos deixar de segui-la. Para compreender por que isso acontece, precisamos olhar para a relação entre as instruções que orientam nosso comportamento e as consequências que encontramos ao agir.
O que a ciência diz sobre isso?
Em 1986, Hayes e colaboradores publicaram o estudo Rule-Governed Behavior and Sensitivity to Changing Consequences of Responding, investigando experimentalmente como instruções verbais influenciam o comportamento e sua sensibilidade às mudanças nas consequências.
No experimento, os participantes precisavam pressionar um botão para movimentar uma luz em uma matriz. As condições alternavam entre duas contingências: uma favorecia respostas rápidas, enquanto a outra exigia um intervalo mínimo de seis segundos entre as respostas para que elas fossem efetivas.
Os pesquisadores manipularam as instruções fornecidas aos participantes, incluindo orientações para responder rapidamente ou devagar, e observaram como essas instruções influenciavam o comportamento diante das diferentes contingências.
Os resultados contribuíram para demonstrar que as instruções verbais podem exercer controle sobre o comportamento, inclusive quando as consequências mudam. Em determinadas condições, seguir uma instrução pode prevalecer sobre o ajuste do comportamento às novas contingências.
Isso ajuda a compreender por que nem sempre modificamos nossas ações apenas porque as circunstâncias mudaram ou porque percebemos que uma estratégia deixou de funcionar.
Na vida cotidiana, uma pessoa pode aprender que precisa se esforçar continuamente para ser valorizada e continuar fazendo isso mesmo quando o excesso de responsabilidades começa a prejudicar sua saúde. Outra pode aprender que evitar situações desconfortáveis é a melhor maneira de lidar com elas e manter essa estratégia mesmo quando a evitação passa a limitar sua vida.
O estudo não investigou diretamente depressão, ansiedade ou estresse. Sua contribuição está em oferecer uma base experimental para compreender como regras podem influenciar a persistência de determinados comportamentos.
Como essas regras podem afetar nossa saúde mental?
As regras que aprendemos ao longo da vida não influenciam apenas nossas escolhas. Elas também podem interferir na forma como lidamos com as emoções, enfrentamos dificuldades e respondemos às situações estressantes.
Quando alguém aprende que precisa dar conta de tudo, por exemplo, pode continuar assumindo responsabilidades mesmo quando está exausto. Se acredita que demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, pode evitar pedir ajuda, mesmo quando está sofrendo. Já uma pessoa que aprendeu que precisa controlar as situações para se sentir segura pode experimentar muita ansiedade diante da incerteza.
Com o tempo, esses padrões podem contribuir para a manutenção do estresse. Na ansiedade, regras rígidas podem favorecer comportamentos de evitação e tentativas constantes de controlar situações ou emoções percebidas como ameaçadoras. Em quadros depressivos, regras relacionadas à autocrítica, à desvalorização pessoal e à necessidade de corresponder a determinadas expectativas podem contribuir para o sofrimento.
Essas relações também ajudam a compreender por que, em algumas situações, tentamos controlar ou eliminar emoções difíceis em vez de aprender a lidar com elas. Uma pessoa que acredita que não pode demonstrar fraqueza, por exemplo, pode evitar falar sobre o que sente. Outra, que considera a ansiedade insuportável, pode começar a evitar situações que provocam essa emoção. Embora essas estratégias possam proporcionar alívio imediato, elas também podem restringir as possibilidades de ação e contribuir para a manutenção do sofrimento.
Esse processo está relacionado à regulação emocional, tema que aprofundo no artigo Regulação emocional: sentir sem ser dominado pelo que sente. Nele, exploro como desenvolver a capacidade de perceber emoções sem reagir automaticamente a elas.
No caso da ansiedade, também vale compreender como estratégias que parecem ajudar no momento podem acabar mantendo o problema. Exploro essa relação no artigo Regulação emocional: por que às vezes parece tão difícil lidar com a ansiedade, que aborda a evitação, as tentativas de controle e a importância de desenvolver respostas mais flexíveis diante do desconforto.
É importante destacar que regras rígidas não são a causa única da depressão, da ansiedade ou do estresse. Essas condições são complexas e envolvem diferentes fatores. A questão é que, em determinadas circunstâncias, padrões de comportamento mantidos por regras inflexíveis podem intensificar o sofrimento e dificultar a adaptação às situações.
O problema não está necessariamente na regra que aprendemos, mas em continuar seguindo-a sem considerar seus efeitos e o contexto em que estamos inseridos.
Exemplos de regras que podem manter padrões prejudiciais
Para compreender como isso acontece na prática, vale observar algumas situações comuns.
1. A necessidade de agradar a todos
Uma pessoa pode aprender que ser aceita depende de atender às expectativas dos outros. Por isso, mesmo quando está sobrecarregada, continua dizendo sim a pedidos que gostaria de recusar.
Embora essa estratégia possa evitar conflitos ou desaprovação em determinadas situações, também pode contribuir para o esgotamento, o ressentimento e a dificuldade de reconhecer as próprias necessidades.
2. O perfeccionismo
Alguém que acredita que precisa fazer tudo perfeitamente pode passar horas revisando uma tarefa, adiar projetos por medo de errar ou sentir que nunca fez o suficiente.
Mesmo quando percebe que esse padrão aumenta seu sofrimento e prejudica sua produtividade, pode continuar agindo da mesma maneira porque aprendeu a associar erros à incompetência ou à falta de valor pessoal.
3. A evitação de emoções desconfortáveis
Uma pessoa pode seguir a regra de que não deve sentir ansiedade, tristeza ou insegurança. Para tentar evitar essas experiências, começa a fugir de situações que provocam desconforto.
Embora a evitação possa proporcionar alívio imediato, ela também pode impedir que a pessoa aprenda a lidar com essas emoções e participe de atividades importantes. Com o tempo, sua vida pode ficar cada vez mais restrita.
4. A necessidade de controle
Quem acredita que precisa prever e controlar tudo para evitar consequências negativas pode passar muito tempo antecipando problemas, buscando garantias ou tentando eliminar qualquer possibilidade de erro.
Essa tentativa constante de controle pode aumentar o estresse e a ansiedade, especialmente diante de situações que envolvem incerteza e que não podem ser totalmente controladas.
Em todos esses exemplos, o comportamento pode continuar mesmo quando suas consequências se tornam prejudiciais. Isso acontece porque as regras aprendidas podem exercer uma influência importante sobre nossas escolhas, dificultando a consideração de outras possibilidades.
Por que entender o problema nem sempre é suficiente para mudar?
É comum acreditar que, depois de identificar um padrão prejudicial, basta decidir agir de outra maneira. No entanto, compreender intelectualmente um comportamento não garante que ele será modificado.
Uma pessoa pode reconhecer que tem dificuldade para estabelecer limites e, ainda assim, continuar dizendo sim por medo da reação dos outros. Pode perceber que o perfeccionismo está prejudicando sua rotina e continuar adiando tarefas porque não consegue aceitar a possibilidade de cometer erros.
Isso acontece porque o comportamento não é influenciado apenas pelo que sabemos ou pensamos. Nossa história de aprendizagem, as consequências das nossas ações e as regras que seguimos também participam desse processo.
Em algumas situações, agir de acordo com uma regra rígida produz alívio imediato. Dizer sim evita um conflito naquele momento. Adiar uma tarefa reduz temporariamente a ansiedade. Conferir repetidamente se tudo está certo proporciona uma sensação momentânea de segurança.
Essas consequências podem contribuir para que o comportamento continue se repetindo, mesmo quando, a longo prazo, ele traz prejuízos.
Por isso, a mudança não depende apenas de reconhecer que uma regra é problemática. Também envolve aprender a responder de maneiras diferentes, inclusive quando isso significa experimentar desconforto ou abrir mão de uma sensação imediata de segurança.
Como desenvolver uma relação mais flexível com as regras?
O objetivo não é abandonar todas as regras que aprendemos, mas desenvolver a capacidade de avaliar quando elas são úteis e quando precisam ser revistas.
Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:
1. Essa regra continua fazendo sentido na situação atual?
Uma regra que foi útil em determinado momento da vida pode deixar de ser adequada em outro contexto. É importante considerar as circunstâncias presentes, em vez de agir automaticamente com base no que aprendemos no passado.
2. O que acontece quando sigo essa regra?
Observe não apenas as consequências imediatas, mas também os efeitos a longo prazo. Uma atitude pode proporcionar alívio momentâneo e, ao mesmo tempo, contribuir para o aumento do sofrimento.
3. Estou escolhendo agir dessa maneira ou sinto que não tenho outra opção?
Essa pergunta ajuda a identificar quando uma regra se tornou rígida a ponto de restringir as possibilidades de ação.
4. Consigo agir de acordo com o que é importante para mim, mesmo sentindo desconforto?
Nem sempre precisamos eliminar a ansiedade, a insegurança ou o medo antes de fazer algo significativo. Desenvolver flexibilidade também envolve aprender a conviver com essas experiências enquanto construímos formas diferentes de agir.
Essas perguntas não oferecem uma solução imediata, mas ajudam a ampliar a percepção sobre os fatores que mantêm determinados padrões de comportamento.
Qual é o papel da psicoterapia nesse processo?
A psicoterapia pode ajudar a identificar as regras que influenciam o comportamento, compreender como elas foram construídas e investigar as consequências de segui-las nas circunstâncias atuais.
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo, busca-se desenvolver flexibilidade psicológica. Isso envolve ampliar a capacidade de entrar em contato com pensamentos e emoções sem precisar obedecer automaticamente a eles, ao mesmo tempo que se constroem ações coerentes com os próprios valores.
O objetivo não é simplesmente substituir pensamentos negativos por positivos ou eliminar todas as regras aprendidas. É desenvolver uma relação mais flexível com aquilo que pensamos, para que nossos comportamentos não fiquem excessivamente restritos ao que acreditamos que devemos fazer.
Assim, uma pessoa pode aprender a reconhecer o pensamento de que precisa agradar a todos sem necessariamente agir de acordo com ele. Pode sentir ansiedade diante de uma situação nova e, ainda assim, escolher participar porque isso é importante para sua vida.
A mudança acontece à medida que novas possibilidades de ação são construídas e a pessoa aprende a considerar as consequências de seus comportamentos, em vez de seguir regras de maneira automática.
Conclusão
As regras que aprendemos ao longo da vida têm um papel importante na organização do comportamento. Elas nos ajudam a tomar decisões, antecipar consequências e orientar nossas ações. Entretanto, quando são seguidas de maneira rígida, podem contribuir para a manutenção de padrões prejudiciais e dificultar mudanças, mesmo quando reconhecemos que algo não está funcionando.
Essa inflexibilidade pode estar relacionada a diferentes formas de sofrimento psicológico, incluindo padrões que contribuem para o estresse, a ansiedade e os sintomas depressivos. Isso não significa que as regras expliquem sozinhas essas condições, mas que compreender sua influência pode ser uma parte importante do processo terapêutico.
Mudar não significa deixar de ter regras. Significa desenvolver a capacidade de avaliar quando elas ajudam, quando deixam de ser úteis e quando é necessário construir novas formas de agir.
Referência
Hayes, S. C., Brownstein, A. J., Zettle, R. D., Rosenfarb, I., & Korn, Z. (1986). Rule-Governed Behavior and Sensitivity to Changing Consequences of Responding.
O artigo pode ser consultado gratuitamente no PubMed Central.

